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edição de 9 de outubro de 2017

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STORYTELLER Saco cheio

STORYTELLER Saco cheio Sou de um tempo em que ladrão fugia se a gente fizesse barulho dentro de casa tatyana_tomsickova/iStock LuLa Vieira Meu Deus, como estou velho! Sou do tempo que a Ligth fazia comerciais incentivando o uso de energia elétrica. O texto, aliás, muito bom, dizia: “Poupe sua energia, use a nossa!” Sou realmente muito velho. Sou do tempo que os ônibus em São Paulo eram da CMTC (Companhia Municipal de Transportes Coletivos), vermelhos e amarelos, TwinCoach, dirigidos por motoristas vestidos de terno, gravata e boné. Eram considerados profissionais do maior respeito, pois a CMTC era rigorosíssima com os testes de admissão. Esses ônibus tinham bancos estofados de bom e legítimo couro, desses que a gente só encontra em carro top de linha. E havia um máximo de passageiros em pé, se não me engano 19. Tem mais, sou de um tempo em que ladrão fugia se a gente fizesse barulho dentro de casa e o guarda-noturno fazia suas rondas desarmado, tocando seu apitinho em surdina e isso era suficiente para a gente dormir em paz. Nas noites muitos quentes, na velha Lapa, dormíamos de janelas abertas. Quando era criança, eu ia visitar meu tio e minha tia que moravam no interior, muito distante, numa cidadezinha chamada Barueri. A gente ia para lá nos trens da Estrada de Ferro Sorocabana chamados de trens de subúrbio, fabricados no Japão. Agora, para sua surpresa, moderninho leitor: as janelas do trem tinham persianas caso o sol fosse forte e cortininha de renda para sol mais ou menos. Eu ia para a escola, o Colégio de Aplicação da USP, de bonde. No caso dos bondes, também da CMTC, os motorneiros usavam terno azul-marinho, gravata e boné. Conduziam os elétricos com a imponência de capitães de navio, conscientes da profunda tecnologia de sua profissão. Seus filhos tinham por eles o maior respeito e os apontavam na rua: “Lá vai meu pai!”. E isso era importante naquele tempo. Ter o olhar de orgulho de um filho. Como eu tinha orgulho de meu pai, um guarda-livros. E de minha mãe, professora primária da rede municipal. Sou de um tempo que ser professor era ter o mais profundo status social. Meu tio era catedrático de Estatística da USP, na Rua Maria Antônia, e a gente tinha tanto orgulho dele como hoje as crianças têm do pai que possui jatinho ou mansão em Miami. Ser professor primário era um luxo, universitário então. Meu tio tinha um Fusca e um apartamento próprio (dois quartos). Isso fazia dele um mito. Um bem-sucedido. Porra, como sou velho! Pegava-se gonorreia e assaltante não matava pelo prazer de matar, pelo menos a grande maioria deles. As emissoras de rádio de meu tempo tinham orquestras próprias, auditórios e elencos de rádio-teatro. Mesmo no interior, havia emissoras que empregavam dezenas de radialistas e boa parte delas mantinha equipes de esportes, encarregadas de transmitir as partidas do time local. Só Marília, por exemplo, tinha quatro emissoras de rádio, assim como Ribeirão Preto ou Santos. Elas disputavam os ouvintes com uma programação local que exigia muitas vezes produções esmeradas, envolvendo dezenas de profissionais. É verdade que telefonar exigia esperar muito tempo por uma linha ou aguardar horas para a telefonista completar um interurbano. Não havia internet nem email, só cartas e um correio péssimo, de carteiros simpáticos, cujo único medo era os cachorros. Aliás, cachorros que comiam restos de comida e viviam muito bem, de pelos luzidios e saúde perfeita, mesmo comendo pedaços de linguiça de churrasco, arroz, feijão e macarrão com molho de tomate, restos dos pratos da família. A propaganda, risonha e franca, tinha como mídia básica os jornais, revistas, rádio e cartazes. De todos os tipos, principalmente de ônibus e bondes, onde os maiores poetas da época ganhavam um trocado para dizer que Bayer é bom e pedindo ao “ilustre passageiro” reparar no belo tipo faceiro que o senhor tem ao seu lado. Ah! Sim! E luminosos gigantescos no alto dos edifícios acendendo e apagando em cores as maravilhas da Marmelada Peixe, da Massa de Tomate Elefante, da Cafiaspirina e do Guaraná Champagne da Antarctica. Sem se esquecer da Gillette (Barba feita é perfeita com Gilette Azul). Moro hoje no Rio de Janeiro, tenho celular e passo o dia mandando mensagens pelo WhatsApp. Ouço falar o tempo inteiro em start-ups e de inovação, dos trilhões de pessoas integradas pelas redes sociais e das maravilhas do mundo moderno. Hoje ganho a vida utilizando as ferramentas que a tecnologia colocou ao meu alcance. Sou um homem moderno, do meu tempo. Mas tenho medo de sair à noite, tomo remédio para a depressão, sofro de uma angústia que não sei explicar, vivo numa cidade deslumbrante onde tudo é muito caro e o transporte público é uma merda. No convívio diário, as pessoas não dizem mais bom dia ou boa noite quando se encontram. Se eu espirrar, não ouço mais “saúde!”. E mais – no meu tempo pagava-se melhor por um aprendiz de mecânico, um office boy do que hoje se paga para a maioria dos estagiários recrutados para escrever bobagens nas redes sociais. Eram velhos tempos, ridículos velhos tempos. Mas, por incrível que pareça, estou com saudades dessa vida pior. Lula Vieira é publicitário, diretor da Mesa Consultoria de Comunicação, radialista, escritor, editor e professor lulavieira@grupomesa.com.br 30 9 de outubro de 2017 - jornal propmark

mais antenada mais florestas plantadas Você sabia que as empresas brasileiras produtoras de papel obtêm 100% da celulose a partir de florestas plantadas? * A área de florestas plantadas no Brasil equivale a 2.2 milhões de campos de futebol.* Não existe nada tão divertido quanto papel para estimular a criatividade. Leia sua revista favorita tranquilamente, pois o papel utilizado nela é feito de madeira natural e renovável. Para descobrir fatos ambientais surpreendentes sobre a comunicação impressa e o papel, visite www.twosides.org.br Apoio: Two Sides é uma iniciativa que promove o uso responsável da comunicação impressa e do papel como uma escolha natural e reciclável para comunicações poderosas e sustentáveis. *Ibá - Indústria Brasileira de Árvores 2016/2017

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