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edição de 29 de fevereiro de 2016

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STORYTELLER Presença do alemão Ando com uma terrível dificuldade de me lembrar de nomes de pessoas Felipe Birck LuLa Vieira Estou ficando velho ou a vida pouco cuidadosa está mandando, finalmente, a conta. Eu chamo de visitas do alemão, referindo-me ao Alzheimer. Ando com uma terrível dificuldade de me lembrar de nomes de pessoas. E estou ficando cada dia pior. Poucas vezes consigo identificar quem está falando comigo em encontros ocasionais. Ultimamente, confesso, tenho ido a festas com o terrível receio de não reconhecer os anfitriões e fazer como fiz outro dia, entregar as flores de visitante à copeira. Ainda que depois de ligar o nome à pessoa e às circunstâncias, eu consiga ter uma memória de menino, recordando detalhes acontecidos anos atrás, se eu não tiver ajuda sou capaz de não reconhecer a mim mesmo no espelho. Vivo em pânico diante da possibilidade de encontrar alguém que me pergunte: “lembra-se de mim?”. Muitas vezes, diante de carinhosas manifestações de intimidade, não tenho coragem de confessar total ignorância sobre de quem se trata, com justo receio de ofender a pessoa. E fico mantendo um diálogo inteiramente maluco na busca de uma pista para descobrir quem me abraça efusivamente e me apresenta orgulhoso para a família inteira como grande e querido amigo. Nessas horas estabelece- -se o diálogo mais imbecil. “E ai? Tudo bem por lá?”. “Tudo. E com você?”. “Estamos indo, como você sabe, mas tá duro!”. “Assim é a vida, e o resto?”. “Levando...”. A esperança é que alguma resposta ajude a situar algum tipo de tribo, lugar, contexto. Mas há gente profundamente cruel que é capaz de passar longos minutos sem citar um único nome, sem dar uma dica qualquer que justifique os sucessivos abraços e as juras de saudades matadeiras. “Que bom te ver Lula! Ainda ontem eu estava falando com a turma e disse que desde aquele dia nunca mais tinha te visto, seu grande filho da puta. Mas jurei para o pessoal que o dia que eu te encontrasse iria cobrar os detalhes daquela história que você contou naquela noite”. Enquanto isso minha cabeça ferve. Acredito mesmo que mereça ser chamado de filho da puta, pois não consigo me lembrar de uma única vez que tenha contado alguma história para aquele rosto sorridente e feliz em me ver. Com o tempo, parece que esta minha característica está piorando. Tenho me esquecido até de me lembrar das pessoas com as quais briguei. São poucas, felizmente, mas existem. Outro dia, saindo de um evento, dei carona alegremente para uma moça, fazendo o carro se desviar do caminho só para deixá- -la em casa. Após o desembarque dela, um outro carona me disse que se surpreendera com meu perdão, a ponto de fazer uma volta tão grande só para agradá-la. Foi daí que a ficha caiu. Ela era uma cliente que me traíra numa das mais sórdidas ingratidões que eu já sofri na vida. Eu tinha a recomendado para a gerência de marketing de um cliente. Minha sugestão foi aceita e ainda por cima tive de usar meu prestígio (pouco, mas, no caso, válido) para contornar alguns conflitos surgidos na hora da contratação. E, qual foi uma das primeiras providências que ela tomou depois de empossada? Propor uma concorrência para trocar de agência. Parece mentira, mas é a mais absoluta verdade. Não foram precisos mais que três anos para eu me esquecer do episódio. Mesmo sem ser um monge budista, acredito piamente que o ódio pode ser muito prejudicial à saúde. Normalmente quando levo alguém ao panteão dos filhos da puta, deixo, enterrado, para que a lembrança se esvaneça com o passar do tempo. Mas agora aconteceu um episódio de suma gravidade. Estava no aeroporto quando um senhor com fortíssimo sotaque gringo me cumprimentou com toda educação e disse que tinha gostado muito das sugestões que eu tinha dado a ele em nosso último encontro, as submetera ao conselho da empresa e todos acataram. Já havia até mesmo aplicado algumas delas. Disse que gostaria muito de me ver novamente, inclusive para discutirmos sobre a conta de propaganda. Neste momento a fila do seu avião se movimentou e eu o perdi de vista. Estou há exatamente duas semanas querendo me lembrar para que gringo eu dei ideias. O que eu sei é que há um prospect perdido por aí. Meus sócios já sugeriram sessão de hipnose, tortura e até mesmo sonoterapia. Pedi um pouco de paciência, pois já aconteceu de a história vir inteirinha após o relaxamento. Mas desta vez está mais difícil. Pela cara do gringo e pela cara dos acompanhantes, deve ser uma puta de uma conta. PS.: Se eu já contei esta história, me perdoe. Ponha na conta de um tal de Aloysius, que nasceu na Alemanha em 1864. Foi ele que, formado em psiquiatria, emprestou seu nome à doença ou mal de Alzheimer. Lula Vieira é publicitário, diretor da Mesa Consultoria de Comunicação, radialista, escritor, editor e professor lulavieira@grupomesa.com.br 36 29 de fevereiro de 2016 - jornal propmark

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