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edição de 28 de agosto de 2017

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STORYTELLER Milkos/iStock Originalidade Discute-se a ferramenta, a plataforma, esquece-se que o importante não é a tela e o pincel, mas a mão de quem pinta LuLa Vieira Eu ando velho, ranzinza e muito, muito, insuportavelmente chato. Pesa-me nos ombros e na cabeça os anos de vida, os tempos que passei, as modas que vivi e as novidades que sempre aparecem com seus arautos dizendo que o mundo mudou. Cada vez que um deslumbrado me fala que jovem não vê TV, que as redes sociais são a mais importante revolução do mundo desde que o primata ancestral descobriu a roda, que o passado está morto e enterrado, volta-me mais do que o cansaço. Volta-me a sensação que eu já vivi isto tudo. Eu já vi morrer o clichê, já assisti o formidável enterro da AM, estive no féretro da revista. Já assisti palestra de quem dizia que o modelo de agência de publicidade estava destinado ao lixo da história. Discute- -se a ferramenta, a plataforma, esquece-se que o importante não é a tela e o pincel, mas a mão de quem pinta. Podemos criar um mármore melhor do que o ventre da terra produz, até um cinzel mais sofisticado do que o velho Michelangelo usava. Mas somos – oh, criadores! – fazedores de conteúdo. Que transcende o modelo, e se destina ao que é fundamental. O ser humano, seus desejos e suas regras. Velho desencavador de histórias, quero ser sempre nestas páginas quem avisa: mesmo no smartphone, mesmo no iPad, mesmo no dispositivo mais sofisticado, o que vale é a narrativa. Uma boa história. É isso que desde os tempos imemoriais as pessoas querem ouvir. Histórias. Como a que se segue. Certa vez, Adolpho Bloch resolveu dar um presente de Natal a todos os anunciantes da Manchete. Como quem me contou este caso foi o Janir Hollanda e a memória dele anda tão boa quanto a minha, ele não se lembrava mais se o presente seria um peru, uma agenda ou qualquer outro mimo. O importante é que seria um presente bacana, conseguido através de magnífica permuta conduzida pelo próprio Adolpho, disposto a marcar presença no coração “do freguês”, que é como ele, de vez em quando, se referia àqueles que botavam grana na empresa. Naquela época, a Bloch tinha como funcionários uns três ou quatro integrantes da Academia Brasileira de Letras, alguns escritores mortais, mas não menos ilustres, e jornalistas famosos pela qualidade de seus textos. Era um timaço de primeira qualidade, espalhado pelas várias revistas da casa e por alguns produtos especiais, como enciclopédias, dicionários, coletâneas etc. Vai daí que “seu” Adolpho resolve pedir a eles um texto a ser assinado pela Bloch Editores para acompanhar o presente. Queria algo novo, retumbante, emocionante, direto, contundente, memorável. À sua maneira caótica de administrar, Adolpho foi pedindo o texto para cada intelectual que encontrava pelo corredor. Não sei exatamente com quem ele falou, mas poderia ter encontrado nos corredores gente como Henrique Pongetti, Rubem Braga, Fernando Sabino, Nelson Rodrigues, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Paulo Mendes Campos... Isso sem contar colunistas de conhecida capacidade de emocionar, como Arthur da Távola, Murilo Melo Filho, Moisés Weltmann e até a pena irreverente e sarcástica de Carlos Imperial. O tempo passa e vão chegando as colaborações. Adolpho lê cada uma delas e não gosta. Ou muito comprida, ou muito poética, ou muito cristã. Ou então desabusada, como a de Carlos Imperial. Realmente, dizia Adolpho, as coisas mais simples são as mais difíceis. Até que ele se lembra de seu ghost writer preferido: Carlos Heitor Cony. Esse entendia sua alma, a ponto de escrever exatamente como ele mesmo pensava. No papel de cabeça literária do chefe, Cony era capaz de ser um fã ardoroso de Juscelino. Ou um judeu ucraniano. Seria capaz de descrever o amor pela cadela Manchetinha como se fosse um cachorro falante. Cony era a única solução. Mandou chamá-lo e encomendou o texto. Que veio rapidamente, datilografado numa lauda da Manchete. Adolpho abre, lê, sorri e sentencia: “só mesmo o Cony!”. E enviou o papel para o Departamento de Arte fazer um leiaute à altura. O portador, curioso e emocionado pela oportunidade de ler em primeira mão uma obra literária abre o papel. E lê: “Boas-festas. Feliz Ano Novo”. Lula Vieira é publicitário, diretor da Mesa Consultoria de Comunicação, radialista, escritor, editor e professor lulavieira@grupomesa.com.br 14 28 de agosto de 2017 - jornal propmark

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