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edição de 21 de agosto de 2017

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STORYTELLER RyanJLane/iStock Testemunhando Alguém acredita nesses caras que falam nos comerciais do governo? LuLa Vieira Uma vez convidei meu amigo Miele para fazer um comercial de uma famosa marca de whisky produzido no Brasil. Era um pouco imitação do comercial feito pelo David Niven para o Passport. Mas eu acreditava que o Miele tinha mais credibilidade que o David Niven, até porque Miele era mais reconhecido como heavyuser. Tanto é verdade que uma vez, a pedido de Elis Regina que foi levá-lo até a porta de casa, não bebeu nada. Nessa noite os cachorros não o deixaram entrar. Não reconheceram o dono. Ele teve de ir ao bar da esquina e entornar umas doses para poder ser recebido com a festa canina de sempre. Pois bem no dia da filmagem, Miele me aparece levando o smoking e uma garrafa de scotch dentro da mochila. Estavam no estúdio, além dos profissionais da produtora, o pessoal do cliente. Miele foi apresentado a todo mundo, mas não prestou muita atenção em quem era quem e se preparou para gravar. Na hora de beber o whisky, colocou no copo a bebida da garrafa que tinha trazido. Eu alertei que ele deveria, em nome da verdade, beber o produto do cliente. Miele me olhou sério e respondeu meio bravo: “E eu bebo esta merda?” Outra vez, criei um comercial para uma famosa marca de cigarros (naquele tempo podia) que era um pianista numa boate recomendando o produto. Aprovada a ideia, telefonei para um idolatrado cantor para que ele fizesse o testemunhal. Ele me informou que não fumava. Mas, por curiosidade, quis saber quanto dinheiro tinha perdido na recusa. Quando eu disse o cachê, fez-se um longo silêncio e depois a resposta: “Você me dá três dias?”. Em outra ocasião, uma amada atriz tinha de tecer derramados elogios para um molho. Depois das primeiras tomadas, achei que faltava convicção no seu desempenho. Recomendei mais amor, mais paixão pelo produto. Ela, candidamente me respondeu: “Lula, querido, eu estou vendendo molho de tomate, não caralhos!”. Acho que fiz algumas dezenas de testemunhais na vida, com atrizes, atores, jogadores de futebol, músicos, bailarinas e até mesmo prefeitos, como Cesar Maia, que eu convenci a fazer comercial para uma promoção do comércio do Rio de Janeiro chamada Liquidação Maluca, que começava com ele dizendo: “Apesar do nome, não fui eu que inventei esta liquidação”. Não só ele aceitou fazer, como deve ter ajudado, pois elegeu seu sucessor. Agora uma história do Jô Soares. Pois o puto foi contratado para a convenção que marcaria o lançamento de um molho de tomate, extensão de linha duma marca respeitada. Jô não tinha muito que fazer, nem pensar. Era repetir o velho stand-up que ele estava acostumado, salpicando uma ou duas intervenções customizadas, ou seja, que dessem ideia que o texto era exclusivo da ocasião. Daí ele inventou de fazer graça. Disse que o velho comendador, dono da fábrica, um dia, tinha passado por uma montanha de tomates meio podres que seriam jogados fora e teve uma ideia: “Vamos fazer molho de tomate!”. Era uma piada, uma brincadeira. O público riu. Mas o velho comendador – o tal dono da fábrica – chamou a agência (eu) e com voz de Don Corleone me cochichou: “que ilfiglio de uncaneleha contato questastoria? Questo e quelloche e sucesso” Ou seja: “que filho da puta contou essa história? Foi isso mesmo que aconteceu”. Voltando ao Miele, num comercial de chocolate, ele repetiu tantas vezes que após a vigésima tomada, olhando para a câmera, vomitou copiosamente. Overdose. Num comercial de inseticida, fizemos uma barata de plástico. O roteiro previa a atriz entrar na cozinha, olhar para o chão, cortar para a barata e ela fazer um misto de surpresa, nojo e raiva. Esse era o briefing. Ela foi perfeita. Olhou para baixo, sentiu o drama e explodiu: “putaqueopariu!” Essa tomada foi guardada pelo editor, uma brincadeira. Pois, por engano, foi apresentada para o cliente. Que adorou. E foi exibida na convenção de vendas. Até hoje, quando me encontro com ele, ouço que nunca na vida ele assistiu um comercial mais convincente. Agora, para terminar, alguém acredita nesses caras que falam nos comerciais do governo a favor do Enem, da reforma, do qualquer coisa? Aliás, alguém acredita em comercial do governo? Lula Vieira é publicitário, diretor da Mesa Consultoria de Comunicação, radialista, escritor, editor e professor lulavieira@grupomesa.com.br 24 21 de agosto de 2017 - jornal propmark

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