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edição de 20 de fevereiro de 2017

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D inspiração Música

D inspiração Música é para virar chiclete na cabeça Diretor da produtora Sonido escreve sobre o que é "mais comum na vida de todos nós, da vida normal, que acontece todo dia" e da experiência que todo mundo vive. Ele também destaca o trabalho do músico islandês Ólafur Arnalds Divulgação Lucas Duque é sócio e diretor musical criativo da produtora Sonido 28 20 de fevereiro de 2017 - jornal propmark

ante/iStock e RKaulitzki/iStock LUCAS DUQUE Especial para o PROPMARK Falar de inspiração para um produtor musical invariavelmente acaba caindo em certos clichês. Nossa matéria-prima é emoção, memória, sensações. A música é uma arte não palpável e talvez more aí sua principal potência: entrar pela pele, grudar no ouvido, virar chiclete na cabeça. É normal que a inspiração venha então justo daquilo que é mais comum a todos nós, da vida normal, que acontece todo dia, do tipo de experiência que todo mundo vive. Uma cena na rua, uma conversa que vaza da mesa ao lado, uma viagem com os filhos e até um bom engarrafamento - essas coisas, justo as mais banais, às vezes, sabe-se lá por qual conjuntura cósmica, passam por nós de um jeito diferente, pegam o músico num momento de antena mais afiada e tá feito: a inspiração nos visita. Quando chega assim, acidentalmente, é o melhor dos mundos, mas normalmente vem com urgência. É preciso amarrar a inspiração em notas, em rascunho, aprisionar em ideia antes que ela escape. Inspiração expira a validade com a maior facilidade do mundo. Essa vivência de inspiração espontânea, recebida quase como um presente divino, infeliz e normalmente nos acomete quando não estamos precisando dela. Ou quando, literalmente por inconveniência do tempo ou do espaço, é impossível cercá-la, dar contorno. Quem nunca viveu a mágica e trágica sensação de ter uma ideia brilhante no banho, bem na hora do shampoo? E aí é que entra a saga de um músico: evocar a inspiração quando já existe um deadline, quando há compromisso. Quando a inspiração, essa coisa ensaboada e meio tinhosa, precisa te atender com hora marcada e, de preferência, chegar já meio pronta, exigindo o menor estresse e transpiração possível. É meio por aí que tento ficar mais esperto: descobrir como abrir minhas janelas criativas. Que são pessoais, mas altamente transferíveis – inclusive trocar com os outros e com si mesmo é parte fundamental da história. Ultimamente, com acumulados 14 anos de Sonido, tenho exercitado a procura pelo jeito particular que alguns músicos trabalham, os ingredientes que fazem com que aquela obra se relacione com a ideia de “inédito”. O timbre, o jeito de usar um delay, a mixagem que ajuda na história contada. Veja bem: não é o que nunca foi feito – até porque já foi feito coisa pra caramba nesse mundo. Mas sim o jeito que foi feito. É esse processo que tem me empurrado, me instigado a querer ir além. Estamos na produtora nessa fase do “ir além”. De flertar com as várias maneiras de entregar música, de produzir canções, discos. E de como fazer isso do jeito mais bacana, mais sustentável para todas as pontas do processo. Hoje, não consigo pensar em produzir um disco, finalizá-lo, e foi. Beijo e tchau. Até porque acho que disco não é mais disco. Hoje o disco é de ver e ouvir, de interagir. É imagem, é como ele foi pensado, prensado, distribuído. Com os novos modelos de gravação, de comercialização e de acesso, é preciso muito mais que uma bolacha com 10 músicas boas para colocar um artista no radar ou num circuito, para abrir as portas. E passar horas nesse quadro negro tentando desvendar o que, onde e como se dá essa soma, tentando achar qual é a equação que vai levar a música que eu estou produzindo aos ouvidos dos outros e, com sorte, ao coração ou memórias deles, é o que me inspira. Pensar que pode existir um jeito que vai conduzir aquilo que estamos trabalhando há dias ou meses nos poucos metros de um estúdio pra tocar e ser visto na playlist ou na tela de alguém é, ao mesmo tempo, uma agonia e um fascínio. Eu tenho arrepios com essa reflexão. De pavor e de amor na mesma medida. Num mundo de infinitos micromundos que só agora conseguimos descobrir, é possível. Imagine o que acontece musicalmente em Bangladesh, em Foz do Iguaçu, na Islândia! Pois lá, justo na distante e glacial Islândia, existe um cara que ultimamente aquece meus olhos e ouvidos nesse meu pseudoinverno da Flórida: Ólafur Arnalds é minha atual inspiração de estimação. Ele resolveu gravar suas novas composições em sete lugares diferentes do seu país, com a colaboração de artistas locais. Olha, isso é de uma verdade tão incrível, tão legítima, que dá vontade de entrar na vida dele e das suas músicas tão delicadas. E por quê? Porque ele foi além. Ele nos convidou a ver sua música cinematográfica. Divulgação Sonya_illustration/iStock neyro2008/iStock O disco, a equalização e o artista Imagem que associa a música à metáfora do chiclete, na página ao lado. Acima, uma vitrola com disco, uma ilustração com referência à equalização de som e o músico islandês Ólafur Arnalds. O diretor Lucas Duque escreve: “Estamos na produtora nessa fase do ‘ir além’. De flertar com as várias maneiras de entregar música, de produzir canções, discos. E de como fazer isso do jeito mais bacana, mais sustentável para todas as pontas do processo... Até porque acho que disco não é mais disco. Hoje o disco é de ver e ouvir, de interagir. É imagem, é como ele foi pensado, prensado, distribuído”. jornal propmark - 20 de fevereiro de 2017 29

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