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edição de 14 de maio de 2018

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STORYTELLER taviphoto/iStock A morte do galo Galo chatíssimo, estrela, considerava-se um Pavarotti de penas e acordava todo mundo de madrugada LuLa Vieira Todo mundo poderia morrer naquele filme. Menos quem morreu. O galo da casa. Eu conto a história como a história foi. Paulo Thiago dirigia o filme Sagarana, o Duelo, numa fazenda do interior de Minas Gerais. Além de um folclórico e até hoje não confirmado abate de um jequitibá centenário que estaria atrapalhando ‘uma tomada’, feito negado por todos da equipe, embora faça parte da memória do cinema nacional, as coisas corriam bem. Morava-se na sede da fazenda, preservada com cuidado, comia-se do bom e do melhor, nada faltava, incluindo festas agradabilíssimas nas noites de folga. Coisa raríssima num tempo em que o cinema brasileiro era verdadeiramente heroico, onde faltava tudo: dinheiro, equipamento e muitas vezes até mesmo filme, insumo básico naquela época. Para esse filme não faltava nada, graças a Deus. O financiador era o próprio fazendeiro, além de prefeito da cidade, o que garantia uma qualidade de trabalho invejável. E assim, entre leitões à pururuca e linguicinhas na cachaça, as filmagens, com um elenco fenomenal que incluía Rodolfo Arena, Milton Morais, Ittala Nandi, Joel Barcellos e – é claro – Wilson Grey. É claro que tinha Wilson Grey porque praticamente não havia filme nacional sem Wilson Grey. Só para abrir um parênteses, por sua atuação nesse filme, Wilson ganhou o Coruja de Ouro daquele ano. Como todos os meus letradíssimos leitores se lembram, o conto de Guimarães Rosa se baseia numa trama de vingança, com uma perseguição pelo interior de Minas, quando Turíbio, que volta de uma pescaria, flagra sua mulher com Cassiano, um ex-militar, e jura vingar sua honra. A trama sensacional é uma das obras- -primas de Guimarães Rosa, com todos os ingredientes para manter o interesse até o surpreendente momento final. Pois bem, o único problema que a equipe tinha era exatamente o galo do começo da história. Galo chatíssimo, estrela, considerava-se um Pavarotti de penas e acordava todo mundo de madrugada, além de ensaiar fora de hora, levando a equipe de som à loucura. Mas era o xodó da casa e a primeira-dama costumava recebê-lo no regaço ao sol poente para fazer mimos e arrufos. Ninguém mexia com o galo. Vai que um dia, numa manobra mais desastrada, a Kombi da produção atropela o bicho! Era simplesmente o fim de tudo. Preferível morrer qualquer outro astro da produção, Deus que me livre esse pensamento, mas o galo, logo o galo! Alguém tinha de dar a notícia do passamento da ave, inclusive para providenciar as honras fúnebres. Paulo chegou a pensar em alterar um pouco a história e dar um fim heroico ao rei do terreiro, fazendo com que ele sucumbisse a uma bala perdida. Mas o duelo ao que se referia o título do filme é uma metáfora, não há tiroteio para que se pudesse se registrar para sempre o passamento da figura. O remédio era dar a notícia. A madame estava na cidade e o prefeito no escritório da casa, em reunião com alguns líderes locais e o administrador. Nesses lugares, a boataria corre solta e se a versão que chegasse ao patrão não tivesse o devido requinte, o filme seria o problema menor a ser enfrentado. Pela fama do coronel-prefeito-fazendeiro, o elenco todo estaria em apuros. Vai daí que Paulo, líder da equipe, lembra-se de seus tempos de aluno marista, reza um terço, pede bênção pro pai de santo chefe dos eletricistas, acende uma vela para São Jorge e vai para o sacrifício. O chefão, que gostava do Paulo, oferece uma branquinha, apresenta o povo da sala, discorre um pouco sobre cinema e a importância da cultura, enquanto Paulo quase que tomava a pinga pelo gargalo para ganhar coragem. No fim, sem mais o que dizer ou comentar, inicia a história e conta, esticando o mais que podia, com medo da explosão final. Até que sem ter mais como fazer circunlóquios engole em seco e se prepara para o grand finale. O prefeito pergunta: “E a porra do galo?” Paulo titubeia: “Su- -su-cumbiu!” O velho abre os braços, dá uma sonora gargalhada e abraça Paulo: “Finalmente! Estou livre daquele galo filho da puta que me acordava todo dia, cagava a casa inteira e vinha comer no meu prato e a madame achava uma graça!” O diabo que carregue aquela merda de penas! Para encerrar, pode ser que o filme não fosse Sagarana. Mas a história aconteceu com o Paulo Thiago, isso eu sei. Lula Vieira é publicitário, diretor do Grupo Mesa e da Approach Comunicação, radialista, escritor, editor e professor lulavieira@grupomesa.com.br 24 14 de maio de 2018 - jornal propmark

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