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edição de 13 de fevereiro de 2017

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STORYTELLER MFIlustras

STORYTELLER MFIlustras Cuidado comigo! Grande e desajeitado, falador compulsivo, tem horas que chego às raias da perfeição na categoria bola fora LuLa Vieira Eu sou um desastrado da pior espécie. Tenho infinita inveja daquelas pessoas que conseguem agir e falar sem dar nenhum fora ou, como diria Fernando Pessoa, vivem sem “tropeçar nas etiquetas”. Eu não consigo. Grande e desajeitado, falador compulsivo, tem horas que chego às raias da perfeição dentro da categoria bola fora. Fui a um restaurante onde sou conhecido e bem tratado. O Alcaparra. Todo mundo é (acho eu) meu amigo e consigo ter aquela intimidade deliciosa de botequim. Acostumado a brincar com todos os garçons, tive um mimoso diálogo com um deles, que quase me matou de vergonha. Ocorre que eu entrei no Alcaparra lá pelas 8 da noite, para um uísque antes de ir pra casa, como todo cidadão descente o faz, principalmente numa noite de verão carioca. Foi logo após me aboletar numa mesa do bar que um dos garçons, evidentemente para fazer graça, chegou-se para mim e perguntou: - E aí, doutor Lula, uma taça de champanhe? E o doutor Lula, grosso que só ele, resolveu ser ainda mais brincalhão e respondeu, quase aos gritos, como todo imbecil faz em lugares públicos: - Você disse champanhe? Está pensando que eu sou veado pra tomar champanhe em botequim nesta hora da noite? Até aí tudo bem, apenas mais um diálogo sem sentido trocado entre um freguês e seu garçom. Mas na mesa do lado havia um casalzinho que romanticamente bebericava sua tacinha de champanhe com aquela cara de besta que as pessoas fazem quando acham que estão sendo finas. A história poderia ter acabado por aqui. Claro que eles ouviram, claro que eu fiquei desconcertado, claro que baixou um silêncio constrangedor. Mas eu poderia rir. Poderia até pedir um champanhe e beber, fingindo que era brincadeirinha. Qualquer coisa. Menos me virar para o casal e pedir desculpas e na mesura que tentava ser engraçada ter derrubado o balde do champanhe em cima da moça. E mais: ajudando a levantar o tripé do balde, puxei a toalha, jogando as taças no chão, junto com os canapês. Uma zona que mobilizou toda a equipe do restaurante para limpar, enxugar, trocar a mesa, o sofá e os fregueses. E eu ainda não tinha bebido. Uma vez, em Carcassone, levei a minha mulher a um romântico jantar num silencioso restaurante que parecia saído de um filme musical da Metro. Botei terninho e gravata, pois nessas horas eu acho que uniforme de turista (tênis, camiseta e suéter) tira qualquer romantismo, tomei um banhinho caprichado e me preparei para uma noite inesquecível. E foi. Pedi champanhe enquanto escolhia o vinho (é, eu sei que é coisa de veado, mas tem horas que pega bem), discuti o cardápio em francês (ninguém entendeu nada, mas foi bonitinho) e me comportei como um marido da melhor qualidade. Até que... Enquanto esperávamos a entrada, passei os olhos pelo salão. Havia mais umas 20 mesas com casais como nós, num ambiente de cenário. Luzes de vela e tochas criavam uma iluminação intimista e acolhedora. A música de um piano envolvia a todos. Os outros sons eram apenas sussurros, entrecortados por alguns tinires de louça e cristais. Um luxo civilizado. Ocorre que na parede ao meu lado havia um interruptor. E eu sofro de uma curiosidade mórbida, uma atração pela merda. E falando docemente com minha mulher, liguei o interruptor. Luzes se acenderam. A fonte no meio do salão, que continha apenas umas flores numa fina lâmina de água e algumas velas boiavam, começou a jorrar e o ambiente se transformou numa churrascaria de beira de estrada. Só faltou palhaço para divertir as crianças e um tecladista com uma bateria eletrônica. Ficou tudo claro, feio e barulhento. Claro que eu desliguei o interruptor imediatamente, mas o mal já estava feito. Nada volta ao normal depois de uma cortada dessas. Os respingos apagaram algumas velas, gente se levantou de chofre, houve geral consternação. E eu, tentando fingir que não tinha nada a ver com aquilo, ainda tive de ouvir uma tremenda bronca da dona do restaurante, que quase morreu de susto, pois àquela hora estava entrando no salão com um cassoulet. Não sei se depois de contar essas coisas alguém ainda terá disposição para me chamar para um fim de semana em Itaipava. Mas, pelo menos, que esse artigo sirva como pedido público de desculpas para os queridos amigos que insistem para que eu fique na casa deles e nem sempre entendem por que eu prefiro ficar numa pousada ou hotel. Lula Vieira é publicitário, diretor da Mesa Consultoria de Comunicação, radialista, escritor, editor e professor lulavieira@grupomesa.com.br 38 13 de fevereiro de 2017 - jornal propmark

marcas Liberta surge para exibir gravidade da exploração sexual de crianças ONG conta com campanha assinada pela agência Cucumber que usa imagens fortes em anúncios e filmes; volume de vítimas chega a 500 mil Paulo Macedo problema da exploração O sexual entre cranças e adolescentes é grave. Os números assustam, como destaca campanha desenvolvida pela agência Cucumber, da empresária Sophie Wajngarten que com o marido Fabio, o empresário Elie Horn, fundador da Cyrela, e sua mulher Suzi, além do apoio dos executivos Aron Zylberman e Luciana Temer, criaram a ONG Liberta. São cerca de 500 mil crianças e adolescentes, equivalente a seis estádios do Maracanã lotados, vitimados anualmente por gente com desvio de caráter, tendência ao sadismo e egoístas. Apenas sete em cada 100 casos são denunciados formalmente às autoridades. O que significa que o problema é muito maior. Uma das peças destaca que 320 casos de exploração de menores, com predominância do sexo feminino, são contabilizados por dia em cerca de dois mil pontos conhecidos nas principais rodovias federais. A ideia é não deixar que o assunto seja banalizado e que os que usam como diversão a prática sexual com não adultos sejam devidamente punidos. Muitas crianças se deixam levar por motivos econômicos e aspiracionais. A campanha Números, que já conta com cerca de R$ 1 bilhão de espaços pro bono garantidos, em rádios, TVs, mídia exterior, jornais e revistas, não pretende arrecadar fundos. A ideia é estimular o uso do canal Disque 100 da Secretaria de Direitos Humanos do Ministério da Justiça. Segundo Horn, é um tipo de oportunismo inaceitável. “É pura maldade. Quem faz esse tipo de coisa não tem noção do que está fazendo. Crianças e Cena de uma das peças da campanha Números, criada para incentivar as denúncias contra quem busca prazer com menores Fabio, Sophie, Suzi, Elie, Luciana e Aron, da ONG Liberta: contra a exploração sexual de”, ela explica. A exploração se dá preferencialmente em dois cenários: rodovias federais quando meninas são usadas por gente em trânsito na hora de uma parada para descanso e alimentação. Outro fator são os turistas locais e estrangeiros. A Região Norte é a que tem maior incidência, seguida do Nordeste e das capitais dos estados do Sudeste. A campanha está estrutu- Fotos: Divulgação adolescentes ainda não têm a capacidade de escolha formada. E vão sofrer sequelas para o resto da vida”, disse Horn, que vai doar 60% dos seus bens para fins sociais. Ele é o primeiro brasileiro a integrar o projeto The Giving Pledge, fundado pelos empresários norte-americanos Bill Gates e Warren Buffett. Além dos problemas psicológicos, emocionais e sociais, as vítimas correm o risco de absorverem doenças sexualmente transmissíveis. Para Luciana Temer, o livro As meninas da esquina, da jornalista Eliane Trindade, que inspirou o filme Sonhos roubados, da cineasta Sandra Werneck, mostra a vida de seis meninas que se prostituíam por questão de sobrevivência, mas que não descartaram seus sonhos. “Esse filme é um retrato dessa situação dramática. É resultado de um trabalho de reportagem que durou dois anos para a revista Marie Claire. Vamos incentivar a denúncia para tentar inibir esse tipo de atiturada para permanecer no ar por dez anos. “Propomos uma mudança de atitude e sabemos que isso não vai ocorrer de um dia para o outro. Daí a importância de a campanha ser de longa duração. Para se ter uma ideia da gravidade, procuramos um hotel para locação do filme na região do Brás, em São Paulo, e o dono disse que não cederia porque poderia atrapalhar o negócio dele”, finaliza Sophie. jornal propmark - 13 de fevereiro de 2017 39

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